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Selda Bağcan

Há vozes que não se limitam a cantar: ocupam o tempo e o mundo atravessando décadas, fronteiras e silêncios impostos. 

A voz de Selda Bağcan é uma dessas forças da natureza. Quando irrompe, traz consigo a poeira das estradas da Anatólia, a eletricidade de uma guitarra psicodélica e a urgência de quem sabe que a música é também um território de luta. Afinal, além do Sol conjunto a Mercúrio em Sagitário ambos estão em oposição a Urano em Gêmeos na carta astrológica do seu céu.

Nascida em Muğla, em 14 de dezembro de 1948, Selda cresceu entre o sudoeste turco e Istambul, mas foi antes dos dez anos, ao encontrar um violão, que o seu caminho se começou a desenhar. Estudava engenharia quando a vida lhe pregou uma das suas voltas: um simples disco de 45 rotações vendeu um milhão de cópias e a estudante transformou-se numa artista profissional. O ano era 1970 e uma mulher jovem ousava fazer o que poucos faziam — fundir as canções folclóricas turcas com a energia do rock, criando aquilo que viria a chamar-se anadolu rock. Era pioneira e, durante muito tempo, a única mulher naquele território musical.

O que torna sua obra inconfundível é a forma como a sua voz — poderosa, emotiva, repleta de urgência — se ergue para cantar sobre a fome, o trabalho, as injustiças. Canções de protesto como “Yaz Gazeteci Yaz” (Escreva jornalista, escreva), foi um apelo para que os jornalistas escrevessem sobre o povo e não cedessem às pressões das elites — um grito que soa tão antigo e atual.

Selda pagou um preço alto. Quando os tanques tomaram as ruas da Turquia no golpe militar de 1980, muitos artistas partiram para o exílio. Ela ficou. E, por ficar, foi presa três vezes. Teve o passaporte confiscado, viu-se impedida de atravessar fronteiras para levar a sua música ao mundo e foi ignorada durante vinte anos pela televisão estatal, como se o silêncio pudesse apagar o que ela representava. Mas a música, essa, continuou a soar. Na prisão, nos nove julgamentos de que foi absolvida, na fundação da sua própria editora discográfica — porque, como ela percebeu, a independência artística é também uma forma de sobrevivência.

Hoje, Selda Bağcan vive em Istambul e continua a cantar. A sua história lembra-nos que a arte é um testemunho. E que, mesmo quando tentam calar uma mulher, a sua voz pode tornar-se memória, resistência e, para tantas outras, um jeito de seguir.