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Alícia Alonso

Há vidas que parecem desafiar a própria lógica do possível. A de Alicia Alonso é uma delas. Aos 19 anos, quando um duplo descolamento de retina lhe roubou quase toda a visão, talvez o mundo tenha esperado o fim de uma bailarina. O que aconteceu depois pertence àquela região misteriosa da existência em que a fragilidade encontra uma força que não se explica inteiramente.

Alonso continuou dançando por décadas. No palco, a visão que lhe faltava era reconstruída de outras maneiras: focos de luz colorida, cuidadosamente posicionados, indicavam os lugares; os parceiros precisavam estar exatamente onde a coreografia previa; das coxias, vozes e ruídos discretos ofereciam referências. Cada movimento dependia de confiança, precisão, memória e escuta. Havia uma dança acontecendo também no invisível.

Alicia Alonso tornou-se uma das maiores expoentes mundiais do balé e a única latino-americana a receber o título de prima ballerina assoluta. Durante meio século, viveu Giselle de maneira tão marcante que a crítica chegou a dizer que ela parecia ter nascido para que Giselle não morresse. Fundou a companhia que se tornaria o Ballet Nacional de Cuba e ajudou a consolidar a escola cubana de dança.

Há algo profundamente feminino nessa história, não porque a dor deva ser romantizada ou porque toda mulher precise transformar sofrimento em triunfo. Talvez esteja na capacidade de encontrar novas formas de existir quando a vida muda as regras. Alicia não recuperou o que havia perdido. Aprendeu a habitar o palco de outro modo, confiando em sinais, pessoas, luzes, sons e na precisão de seu próprio corpo.

Aos 74 anos, em 1995, aposentou-se dos palcos. Morreu em Havana, em 2019, aos 98 anos, deixando um legado que atravessou fronteiras e gerações.

Talvez seja isso que certas mulheres nos ensinam sem precisar ensinar: a vida não revela todos os seus caminhos de uma vez. Às vezes, quando uma porta parece se fechar, o mistério abre uma fresta por onde ainda é possível dançar.